Trabalhei durante pouco menos de um ano, a frente do mar. No início era perfeito,havia muitas pessoas à volta, era tudo harmônico, singelo, mas com o tempo, veio o inverno, a solidão e um vento forte que cantava qualquer coisa em meus ouvidos e me assustava.
Como a solidão durante muito tempo era minha companheira no “Plantão de Vendas”, desenvolvi um hábito bem enriquecedor e que trago comigo até hoje: o de observar as coisas à volta.
Houve um dia de forte vento em que um carteiro exercia a sua função tranqüilamente, mas ao pegar uma carta para colocar na caixa de correspondências, varias outras voaram.. Em meio a ventania que insistia em espalhar cartas por todo o quarteirão, uma delas adentrou um pátio fechado, de uma dessas casas de veraneio.
Em pânico, o carteiro colocou tanta energia em recuperar tal o envelope fujão, que esqueceu-se das demais correspondências. Largou sua bicicleta no chão, colocou o braço por entre as grades que protegiam o terreno e esticando-se ao máximo, fez malabarismos para pegar o tal papel. Neste momento o vento soprou ainda mais forte, levando a minha atenção para as cartas na sacola abandonada no cesto da bicicleta e eis que estas começaram a voar, por todos os lados, ficando impossível salva-las.
Este foi o exato momento da epifania. Quantos sonhos desperdiçamos colocando energias demais em um sonho perdido? Quantas oportunidades deixamos de ter por ficarmos obcecados por outras que perdemos?
Quando o homem olhou para cima e viu todas as cartas voando, sentou-se no cordão da calçada e, em pânico, paralisou. Segundos depois se levantou ligeiramente e pôs-se a recolher o quanto pode das cartas voadoras. Entendeu que precisava fazer escolhas. Que não podia dedicar tanta atenção às coisas perdidas, cuidar mais das que ainda possuía e que tendo perdido, precisava escolher aquelas que salvaria.
Talvez o carteiro não tenha feitos todas essas observações de maneira tão metafórica, mas ele aprendeu a cuidar bem das coisas que tinha em suas mãos e estar atento às ventanias.